Diagnóstico e tratamento da agenesia de vagina


Este texto foi atualizado pela última vez em 24 de junho de 2006.

 
Luciana Campanatti Crema
Zsuzsanna Jármy-Di Bella
Marair Gracio Ferreira Sartori
Manoel João Batista Castello Girão

A agenesia de vagina é conhecida desde a antigüidade, sendo sua primeira descrição realizada por Hipócrates em seu livro “Sobre a Natureza da Mulher”. Meyer (1829) e Rokitansky (1838) descreveram as alterações encontradas em autópsias do então chamado “uterus bipartitus”. Kuster (1910) propôs a terapia cirúrgica e Hauser (1962) definiu a síndrome que consiste em genitália externa normal, vagina ausente, útero ausente ou rudimentar, tubas uterinas e ovários normais podendo estar associada a anormalidades renais e esqueléticas, sendo então consagrada a denominação Síndrome de Mayer-Rokitansky-Kuster-Hauser, ou simplesmente Síndrome de Rokitansky. Sua origem está relacionada com a agenesia ou disgenesia da porção mulleriana da vagina e do útero determinada durante o processo de embriogênese dos órgãos genitais femininos (1).

De incidência relativamente rara (cerca de 1:5000 a 1:20000 nascimentos femininos), constitui problema clínico-cirúrgico cuja solução se reveste da máxima importância. Embora de diagnóstico fácil, esta malformação pode passar desapercebida até a época da puberdade, quando as portadoras apresentam apreensão quanto à ausência da menarca ou ainda quanto à dificuldade ao coito. Esse fato tem séria repercussão sobre o psiquismo das doentes, tendo o tratamento suma importância na adequação do seu convívio social e futuro conjugal (2).

O tratamento consiste no emprego de técnicas não cirúrgicas (dilatação progressiva do canal vaginal com auxílio de prótese) e cirúrgicas, sendo mais utilizada atualmente a técnica de neovaginoplastia com abertura da cavidade por dissecção do plano retovesical proposta por Wharton, e revestimento das paredes da neovagina com material que permita epitelização adequada.

São descritas técnicas com uso de materiais tais como transplante intestinal (Baldwin 1904; Mori 1910; Schubert 1911), reparação por meio de retalhos cutâneos (Graves,1921; Frank e Geist,1927), emprego de enxerto de pele (Heppner, 1872; Abbé, 1898; Pickerill, 1924; Kirschener e Wagner, 1930; McIndoe e Banister, 1938) tendo como inconvenientes complicações como corrimento abundante de difícil controle, necrose de retalhos, cicatriz de resultado estético desfavorável nas áreas doadoras de enxerto.

Em 1984, Dhall propõe o emprego de membrana amniótica obtendo um rápido e adequado processo de epitelização sem submeter a paciente a procedimento cirúrgico adicional para obtenção de material para revestimento da neovagina. Como inconveniente tal técnica exige cuidados na seleção, obtenção e conservação da membrana. Tratando-se de material biológico assinala-se a importância de certificar que não haverá risco de transmissão de doenças através da membrana, como por exemplo hepatites e AIDS (3-6).

Buscando minimizar as complicações descritas, tem-se buscado alternativas aos materiais biológicos usados até então para a correção da agenesia de vagina. Encontramos na literatura a descrição do uso de celulose oxidada (Interceedâ) no revestimento de neovagina, método que temos usado em nosso serviço com resultados promissores (7).

Referências Bibliográficas

1. Clínica Cirúrgica Alípio Corrêa Neto, 4a edição, volume 1, pág 405-14,1988.

2. Carranza L S. Reconstrucción vaginal. Ginecol Obstetr Mex;61,999;7(9) 454-8.

3. Moura MD, Ferriani R A, Sá MFS, Wanderley MS, Leite SP, Soares FA. Epitelização vaginal com membrana amniótica em neovaginoplastia . Rev Bras Ginecol Obstet 1994;16(3/4):135-40.

4. Ochoa DL, Hernández EM, Sánchez IP, Angel A. Vaginoplasty with amniotic graft. Bol Méd Hosp Infant Mex 2000;57(5):271-5.

5. Ferriani RA, Carvalho RM, Moura MD, Sá MFS. Neovaginoplastia: comparação entre técnicas cirúrgicas. Rev Bras Ginecol Obstet 1996;18(4):343-7.

6. Piazza MJ. Estudo do epitélio de neovaginas confeccionadas com membrana amniótica pela técnica de McIndoe em pacientes portadoras de agnesia de vagina através de determinação de receptores de estrogênio por método imunuhistoquímico e pela microscopia eletrônica de transmissão. Curitiba; s.n.; 1996. xvii, 128 p. ilus. Tese apresentada a Universidade Federal do Paraná. Departamento de Tocoginecologia. Setor de Ciências da Saúde para obtenção do grau de Professor Titular.

7. Estrada PA, Reyes VVS, Téllez VS, Hinojosa JCC; Pérez CC. Molde vaginal flexible recubierto de celulose oxidada: una opción quirúrgica en neovagina en pacientes com síndrome de Rokitansky-Kuster-Hauser. Ginecol Obstetr Mex 2000; 68(7);301-500.