Conceitos e terminologia em uroginecologia


Este texto foi atualizado pela última vez em 01 de janeiro de 2006.

Claudia C. Takano
Gabriela Cabral de Queiroz
Marair G F Sartori
Edmund C Baracat
Manoel J B C Girão


Para facilitar a comparação de resultados e a comunicação entre investigadores, a Sociedade Internacional de Continência (ICS) em sua última publicação1 (2002), atualizou e criou novas definições para sintomas, sinais, observações urodinâmicas e condições associadas com as disfunções do trato urinário inferior e o estudo urodinâmico (EUD). Estes conceitos se aplicam a todas as pacientes, de crianças a idosos.


I- SINTOMAS DO TRATO URINÁRIO INFERIOR

São indicadores subjetivos de doença ou de alterações percebidas pela paciente ou pelo seu parceiro, que pode levá-la a procurar ajuda profissional. Podem ser referidos voluntariamente ou em anamnese dirigida. Dividem-se em três grupos: sintomas de armazenamento, miccionais e pós miccionais.

1- Sintomas de armazenamento são aqueles experimentados durante a fase de enchimento vesical, e incluem:

· Frequência diária aumentada: é o termo usado para caracterizar a queixa de micções muito frequentes durante o dia, equivalente à polaciúria.

· Noctúria: deve ser utilizado para designar quando a paciente precisa acordar para urinar mais de uma vez durante a noite.

· Urgência: desejo súbito e incontrolável de urinar.

· Incontinência urinária: é qualquer perda involuntária de urina.

· Incontinência urinária de esforço: é a perda involuntária de urina associada ao esforço ou atividade física, como durante a tosse ou espirro.

· Urge-incontinência urinária: é a perda involuntária de urina acompanhada ou imediatamente precedida pela sensação de urgência (inclui desde pequenas perdas até uma perda que leve ao esvaziamento vesical completo).

· Incontinência urinária mista: é a perda involuntária de urina associada ao esforço e também com a sensação de urgência.

· Enurese: é qualquer perda involuntária de urina.

· Enurese noturna: é a perda de urina durante o sono.

· Incontinência urinária contínua: é a perda contínua de urina.

· Outros tipos de incontinência: são caracterizados de acordo com a situação em que ocorre a perda de urina, exemplo incontinência durante o coito ou incontinência durante o riso.

· Sensação vesical: é a maneira como a paciente percebe ou não o enchimento vesical, pode ser qualificada em cinco categorias.

a. Normal: a paciente é capaz de perceber o enchimento vesical e esta sensação aumenta à medida que o desejo miccional torna-se mais forte.

b. Aumentada: a paciente sente desejo precoce e persistente de urinar.

c. Reduzida: a paciente é capaz de perceber o enchimento vesical, mas não sente desejo de urinar.

d. Ausente: a paciente não percebe o enchimento, nem sente desejo miccional.

e. Inespecífica: a paciente não refere sensação vesical específica, mas pode relatar plenitude abdominal, sintomas vegetativos ou espasticidade.

2- Sintomas miccionais ocorrem, como o próprio nome sugere, durante a fase de micção:

· Jato urinário fraco: é o mesmo que fluxo reduzido, quando comparado com performances prévias. Pode ser referido, também, jato em spray.

· Jato urinário intermitente: é o termo usado para caracterizar quando o fluxo urinário é interrompido e reiniciado após um intervalo, involuntariamente, uma ou mais vezes durante a micção.

· Hesitância: descreve a dificuldade para iniciar a micção, resultando em retardo no início do fluxo.

· Esforço miccional: é o esforço abdominal utilizado para iniciar, manter ou melhorar o jato urinário.

· Gotejamento terminal: corresponde à duração prolongada da fase final da micção, com fluxo lento, em gotas.

3- Sintomas pós-miccionais são aqueles experimentados imediatamente após a micção, e incluem:

· Sensação de esvaziamento incompleto: termo auto-explicativo usado para descrever a sensação de persistência de urina na bexiga após a micção.

· Gotejamento pós-miccional: designa a perda involuntária de urina, geralmente em gotas, imediatamente após a micção.

4- Sintomas associados ao coito como dispareunia, ressecamento vaginal e incontinência são os mais comumente descritos, podendo ocorrer durante ou após o ato sexual. É importante caracterizar se a perda de urina se dá durante a penetração, no intercurso ou no orgasmo.

5- Sintomas associados à distopia genital incluem sensação de protuberância (algo que desce), dor lombar, sensação de peso, sensação de arrancamento e necessidade de reduzir com o dedo o prolapso para conseguir defecar ou urinar.

6- Dor genital e do trato urinário inferior: é importante caracterizar o tipo de dor, freqüência, duração, fatores precipitantes e fatores de alívio. Pode ser classificada de acordo com a localização:

· dor vesical: supra-púbica ou retropúbica, geralmente piora com o enchimento vesical e pode persistir mesmo após a micção.

· dor uretral

· dor vulvar: ao redor da genitália externa

· dor vaginal: interna, acima do intróito

· dor perineal: entre a fúrcula e o ânus

· dor pélvica: é menos definida, não sendo localizada em um único órgão, e não claramente relacionada com micção ou função intestinal.

7- Síndromes dolorosas genito-urinárias e sintomas sugestivos de síndrome de disfunção do trato urinário inferior:

Síndrome é o termo utilizado para definir um sintoma principal associado a outro ou mais sintomas, na impossibilidade de se fazer um diagnóstico preciso. Faz-se necessário também a exclusão de doenças de natureza infecciosa, neoplásica, metabólica ou hormonal que possam estar associadas aos sintomas descritos na síndrome.

· As Síndromes dolorosas genito-urinárias são todas de natureza crônica e têm em comum a dor como sintoma principal:

- Síndrome dolorosa vesical: tem como sintoma principal a dor supra-púbica relacionada ao enchimento vesical. Outros sintomas que podem estar relacionados são aumento da freqüência urinária diurna ou noturna. Deve-se descartar infecção urinária e outras doenças do trato urinário.

- Síndrome dolorosa uretral: define a associação de dor na uretra, recorrente, geralmente, durante a micção, noctúria e aumento da freqüência urinária diurna, na ausência de infecção urinária ou outra doença.

- Síndrome dolorosa vulvar: dor vulvar associada a sintomas de disfunção do trato urinário inferior ou disfunção sexual, excluída infecção vaginal ou doença neoplásica, metabólica ou hormonal.

- Síndrome dolorosa vaginal: dor vaginal relacionada à disfunção sexual ou do trato urinário inferior afastadas outras condições óbvias.

- Síndrome dolorosa perineal: dor perineal ligada ao ciclo da micção ou associada à disfunção sexual ou do trato urinário inferior, excluídas as causas óbvias.

- Síndrome dolorosa pélvica: dor pélvica relacionada a sintomas sugestivos de disfunção do trato urinário inferior, sexual, intestinal ou ginecológica, na ausência de doença infecciosa, neoplásica, hormonal ou metabólica.

· Sintomas sugestivos de síndrome de disfunção do trato urinário inferior:

- Urgência: associada ou não à urge-incontinência, geralmente acompanhada de freqüência e noctúria pode ser descrita como síndrome de bexiga hiperativa, síndrome de urgência ou síndrome urgência – freqüência. A combinação desses sintomas é sugestiva de hiperatividade do detrusor demonstrada pelo estudo urodinâmico, mas a causa pode ser outra forma de disfunção uretro-vesical.

- Sintomas do trato urinário inferior sugestivos de obstrução vesical são predominantemente sintomas miccionais (jato fraco, hesitância, esforço miccional, gotejamento terminal), mas também podem ser irritativos (urgência, urge – incontinência, noctúria, freqüência, sensação de esvaziamento incompleto).


II - SINAIS SUGESTIVOS DE DISFUNÇÃO DO TRATO URINÁRIO INFERIOR

1- Medidas de freqüência, gravidade e impacto dos sintomas do trato urinário inferior:

O registro dos eventos micçionais pode ser feito de três maneiras:

· Tabela miccional: registra o número de micções, diurnas e noturnas, por um período de pelo menos 24h.

· Tabela de volume e freqüência: registra o volume e o tempo de cada micção, diurna e noturna, por no mínimo 24h.

· Diário vesical: registra o número de micções, seu volume, episódios de incontinência, uso de absorventes, ingesta de fluidos, grau de urgência e de incontinência.

As seguintes medidas podem ser obtidas nas tabelas de volume e frequência e no diário vesical:

· Freqüência diurna: é o número de micções durante o período em que a paciente está acordada, e inclui a última micção antes de dormir.

· Noctúria: número de micções durante o período de sono noturno. Cada micção deve ser precedida e seguida por um período de sono.

· Freqüência de 24h: é a freqüência diurna somada ao número de episódios de noctúria durante um período de 24 horas.

· Produção de 24h: é o volume total urinado em 24h. Geralmente inicia-se após a primeira micção e termina incluindo a primeira micção da manhã seguinte.

· Poliúria: é quando o volume urinado é superior a 2,8 litros em 24h (em adultos).

· Volume urinário noturno: é o volume urinado após o sono e ao levantar com intenção de urinar, portanto exclui a última micção antes de dormir, mas inclui a primeira micção ao levantar.

· Poliúria noturna: está presente quando uma proporção maior do volume urinado em 24 horas ocorre no período noturno (superior a 20% em adultos jovens e 33% em maiores de 65 anos).

· Volume máximo urinado: é o maior volume urinado durante uma micção, registrado em uma tabela de volume e freqüência ou diário vesical.

2- O exame físico é essencial no manejo do paciente com disfunção do trato urinário inferior e deve incluir todos os passos do exame convencional, exame ginecológico e exame neurológico. Alguns sinais podem ser observados durante o exame físico:

· Exame abdominal: a bexiga pode ser percebida durante a palpação abdominal ou percussão supra-púbica

· Inspeção genital/perineal: permite a descrição das características da pele, alterações anatômicas e observação de incontinência.

- Incontinência urinária (sinal): é a perda de urina observada ao exame, podendo ser uretral ou extra – uretral.

- Incontinência urinária de esforço (sinal): é a percepção, ao exame, da perda de urina através da uretra sincrônica a uma manobra de esforço (espirro, tosse, Valsalva).

- Incontinência extra – uretral: é a observação de perda de urina por outro canal que não seja a uretra.

- Incontinência não categorizada: é a perda de urina verificada durante o exame, que não pode ser classificada em nenhuma das categorias prévias.

· Exame vaginal: permite a descrição de alterações anatômicas e avaliação da função dos músculos do assoalho pélvico.

- Prolapso de órgãos pélvicos: é a descida de uma ou mais das estruturas descritas abaixo.

- Prolapso da parede vaginal anterior: é a descida da parede vaginal anterior.

- Prolapso do segmento apical da vagina (colo uterino ou cúpula vaginal): é a queda do colo uterino ou cúpula vaginal.

- Prolapso da parede vaginal posterior: é a descida de qualquer ponto da parede vaginal posterior.

· Função da musculatura do assoalho pélvico: pode ser avaliada pela inspeção visual, palpação, eletromiografia ou perineometria. Os fatores a serem avaliados incluem força, duração da contração, amplitude e reprodutibilidade. No exame de toque em repouso e/ou durante contração voluntária pode ser classificada em forte, fraca ou ausente.

· Exame retal: permite a avaliação da função da musculatura do assoalho pélvico em crianças e homens.

3- Pad teste: utilizado para quantificar a perda de urina nos episódios de incontinência. Os métodos variam do teste provocativo curto até o teste de 24h.


III - OBSERVAÇÕES URODINÂMICAS

1- TECNICAS URODINÂMICAS

· Estudo urodinâmico convencional: geralmente é realizado em laboratório e envolve enchimento artificial da bexiga.

· Estudo urodinâmico ambulatorial: teste funcional do trato urinário inferior, utilizando enchimento natural, e reproduzindo atividades diárias da paciente.

Medidas utilizadas na cistometria e estudo fluxo-pressão

· Pressão intra-vesical: pressão no interior da bexiga

· Pressão abdominal: pressão externa à bexiga. Na prática clínica é estimada pela pressão retal ou vaginal

· Pressão do detrusor: componente da pressão intra-vesical que é criado pelas forças na parede vesical. É estimado subtraindo-se a pressão abdominal da pressão intra-vesical.


2- CISTOMETRIA DE ENCHIMENTO:

É o método pelo qual a relação pressão/volume da bexiga é medida durante o enchimento vesical.

A taxa de enchimento vesical pode ser dividida em fisiológica, quando é menor que a taxa de enchimento máxima calculada (peso em kg dividido por 4, expressa em ml/minuto), e não-fisiológica, quando é maior que este valor.

A função de armazenamento vesical é descrita de acordo com a sensação vesical, atividade do detrusor, complacência vesical e capacidade vesical.

2.1 Sensação vesical durante a cistometria

Pode ser normal, aumentada, reduzida ou ausente, de acordo com 3 pontos definidos durante a cistometria e avaliados de acordo com o volume vesical e sintomas do paciente, a saber:

· Primeira sensação de enchimento vesical: primeira percepção de enchimento

· Primeiro desejo miccional: desejo de urinar que pode ser adiado

· Forte desejo miccional: persistente desejo de urinar sem receio de perda

A sensação vesical é aumentada quando a sensação de enchimento e/ou desejo miccional ocorrem com volumes baixos; é reduzida quando a sensação está diminuída e ausente quando não há nenhuma sensação vesical.

· Sensações vesicais não específicas: outras sensações durante o enchimento, como aumento abdominal e sintomas vegetativos

· Dor vesical

· Urgência: súbito e imperioso desejo de urinar

· Limiar sensório vesical/uretral: menor corrente que produz sensação percebida pelo paciente durante estimulação local.

2.2 Função detrusora durante a cistometria:

· Função detrusora normal: permite o enchimento vesical com pouca ou nenhuma variação de pressão, e não ocorrem contrções involuntárias, mesmo com manobras provocaticas.

· Hiperatividade do detrusor: contrações involuntárias do detrusor durante a fase de enchimento, podendo ser espontânea ou provocada.

-Hiperatividade do detrusor fásica: apresenta forma característica de onda e pode ou não levar à incontinência

-Hiperatividade do detrusor terminal: contração involuntária única, que ocorre na capacidade cistométrica e não pode ser suprimida, geralmente levando ao esvaziamento vesical.

-Hiperatividade do detrusor neurogênica: quando há uma condição neurológica relevante

-Hiperatividade do detrusor idiopática: quando não há causa definida.

· Incontinência por hiperatividade do detrusor: incontinência decorrente de contração involuntária do detrusor.

· Manobras provocativas: técnicas usadas durante o urodinâmico para provocar hiperatividade, como enchimento rápido, uso de meio gelado ou ácido, mudança postural ou lavagem das mãos.

2.3 Complacência vesical durante a cistometria: relação entre alteração de volume vesical e alteração da pressão do detrusor, calculada pela divisão das duas medidas (DV/DP), expressa em ml/cm H2O. A observação de complacência vesical diminuída na cistometria convencional está freqüentemente relacionada ao rápido enchimento, e é significativamente menor quando a taxa de enchimento é fisiológica, como no estudo urodinâmico ambulatorial.

2.4 Capacidade vesical durante a cistometria:

· Capacidade cistométrica: corresponde ao volume vesical no final da cistometria (soma do volume urinado com eventual volume residual), quando é dada a “permissão para urinar”. Deve-se especificar a razão da parada do enchimento: por exemplo forte desejo miccional, e, se não há sensação vesical, alta pressão do detrusor, grande volume infundido, ou presença de dor. Se ocorre uma micção incontrolável, a capacidade cistométrica corresponde ao volume em que se iniciou a perda.

· Capacidade cistométrica máxima: é o volume no qual o pacientes com sensação normal não podem mais postergar a micção.

· Capacidade vesical máxima sob anestesia: volume máximo no qual a bexiga pode ser repleta sob anestesia geral ou espinhal. Deve ser especificado o tipo de anestesia, velocidade, duração e pressão de enchimento.

2.5 Função uretral durante o enchimento: o mecanismo de fechamento uretral durante a fase de enchimento pode ser competente ou incompetente.

· Mecanismo de fechamento uretral normal: mantém uma pressão de fechamento uretral positiva durante o enchimento vesical mesmo na presença de aumento da pressão abdominal, embora possa ser suplantado por hiperatividade detrusora.

· Mecanismo de fechamento uretral incompetente: permite perda de urina na ausência de contração do detrusor.

· Incontinência por relaxamento uretral: perda urinária por relaxamento uretral na ausência de aumento da pressão abdominal ou hiperatividade do detrusor.

· Incontinência de esforço urodinâmica: é observada durante a cistometria de enchimento e definida como perda involuntária de urina durante aumento de pressão abdominal, na ausência de contração do detrusor.

2.6 Avaliação da função uretral durante a cistometria de enchimento

· Medida da pressão uretral:

-Pressão uretral: é a pressão de fluido necessária para abrir a uretra

-Perfil pressórico uretral: é um gráfico indicando a pressão intraluminal ao longo do comprimento da uretra.

-Perfil pressórico de fechamento uretral: é dado pela subtração da pressão intravesical da pressão uretral.

-Pressão uretral máxima: é a maior medida de pressão do perfil

-Pressão máxima de fechamento uretral: é a máxima diferença entre a pressão uretral e a pressão intravesical.

-Comprimento funcional da uretra: comprimento da uretra em que a pressão intra-uretral excede a pressão intravesical.

-Taxa de transmissão de pressão: porcentagem do aumento da pressão uretral em relação ao simultâneo aumento de pressão intravesical durante o esforço.

· Pressão de perda anormal: é a pressão intravesical no qual ocorre perda de urina por aumento de pressão abdominal na presença de contração do detrusor. Deve ser especificado de acordo com o local da medida (retal, vaginal ou intravesical) e método do aumento de pressão (tosse ou valsalva)

· Pressão de perda do detrusor: menor pressão do detrusor em que a perda de urina ocorre na ausência de contração do detrusor ou aumento de pressão abdominal. Tem sido utilizada mais freqüentemente para predizer alterações do trato urinário superior em pacientes com complacência vesical diminuída.

3- ESTUDOS FLUXO-PRESSÃO

Método pelo qual a relação entre a pressão na bexiga e a taxa de fluxo urinário é mensurada durante o esvaziamento.

3.1. Medida do fluxo urinário

· Fluxo urinário: pode ser contínuo ou intermitente. O fluxo contínuo pode ter forma de arco ou pode ser flutuante, quando há múltiplos picos. A forma é determinada pela contratilidade do detrusor, e pela presença de esforço abdominal ou obstrução à saída de urina.

· Taxa de fluxo: volume de fluido expelido pela uretra por unidade de tempo, expresso em ml/segundo.

· Volume urinado: volume total expelido pela uretra.

· Fluxo urinário máximo: valor máximo da taxa de fluxo

· Tempo de micção: duração total da micção, incluindo interrupções. É igual a taxa de fluxo quando não há interrupções.

· Tempo de fluxo: tempo em que um fluxo mensurável ocorre.

· Taxa de fluxo médio: volume urinado dividido pelo tempo de fluxo.

· Tempo de fluxo máximo: tempo decorrido do início do fluxo até o fluxo máximo.

3.2 Medidas de pressão durante estudos fluxo-pressão

As medidas são aplicáveis para curva de pressão intravesical, abdominal, e do detrusor:

· Pressão premiccional: pressão registrada imediatamente antes do início da contração isovolumétrica.

· Pressão de abertura: pressão registrada no início do fluxo de urina.

· Tempo de abertura: tempo decorrido do início do aumento da pressão do detrusor até o início do fluxo.

· Pressão máxima: maior valor de pressão medido.

· Pressão no fluxo máximo: menor pressão registrada na maior taxa de fluxo.

· Pressão de fechamento: pressão medida no final do fluxo.

· Pressão mínima de micção: menor pressão durante um fluxo mensurável, não sendo necessariamente igual à pressão de abertura ou fechamento.

· Demora de fluxo: tempo entre uma alteração na pressão vesical e correspondente variação na taxa de fluxo.

3.3. Função do detrusor durante a micção

· Função normal do detrusor:

Em uma micção normal ocorre uma contração contínua do detrusor, voluntariamente iniciada que leva à um esvaziamento completo da bexiga em um intervalo de tempo normal, e na ausência de obstrução.

· Atividade detrusora anormal:

- Detrusor hipocontrátil: contração de intensidade e/ou duração reduzidas, resultando em um tempo de esvaziamento prolongado e/ou em falha em atingir um completo esvaziamento em um intervalo normal de tempo.

- Detrusor acontrátil: não é demonstrado contração durante o esudo urodinâmico.

- Resíduo pós-miccional: volume de fluido que permanece na bexiga no final da micção.

3.4. Função uretral durante a micção

· Função uretral normal: ocorre abertura da uretra e relaxamento que permite o esvaziamento da bexiga sob uma pressão normal

· Função uretral anormal: pode ser decorrente de obstrução por hiperatividade uretral ou por anormalidade anatômica, como estreitamento uretral.

- Obstrução infra-vesical: termo genérico para obstrução durante a micção que é caracterizada por aumento da pressão do detrusor e taxa de fluxo reduzida. É geralmente diagnosticada avaliando-se simultaneamente a taxa de fluxo e a pressão do detrusor.

- Disfunção miccional: caracterizada por fluxo intermitente ou flutuante devido à contrações intermitentes involuntárias da musculatura estriada peri-uretral durante a micção em indivíduos neurologicamente normais. Esta condição ocorre mais frequentemente em crianças, e embora acredite-se que ocorra devido à contrações do assoalho pélvico, é possível que também haja participação da musculatura estriada intra-uretral.

- Dissinergia detrusor-esfincteriana: é definida como contração do detrusor concomitante a contração involuntária da uretra e/ou músculo estriado peri-uretral. Ocorre tipiamente em indivíduos com lesão supra sacral.

- Obstrução por não relaxamento do esfíncter uretral: ocorre em indivíduos com lesão neurológica e é caracterizado por uma obstrução uretral por não relaxamento resultando em fluxo urinário reduzido.


IV- CONDIÇÕES

* Retenção urinária aguda: é definida como uma condição em que a bexiga é percutível ou palpável, dolorosa, e o paciente não é capaz de urinar. Embora seja sintoma característico, em algumas circunstâncias a dor pode estar ausente, como após anestesia regional, pós-parto ou no prolapso de disco intervertebral.

* Retenção urinária crônica: condição em que a bexiga não é dolorosa, e permanece palpável ou percutível após o paciente ter urinado. Alguns pacientes podem ser incontinentes. A ICS não mais recomenda o uso do termo “incontinência por transbordamento” por não ter uma definição bem estabelecida. Se for usado, uma definição precisa, e a condição fisiopatológica associada devem ser descritos.


V- TRATAMENTO

1- Reabilitação do trato urinário baixo: é definido como tratamento não-cirúrgico e não-farmacológico para função do trato urinário inferior. Inclui:

· Treinamento do assoalho pélvico: contração e relaxamento voluntário, repetitivo e seletivo de músculos específicos do assoalho pélvico.

· Biofeedback: técnica pela qual informações sobre um processo fisiológico normalmente inconsciente é apresentado para a paciente e/ou para o terapeuta como um sinal visual, sonoro ou tátil.

· Modificação comportamental: análise da relação entre os sintomas do paciente e o seu meio ambiente e comportamento, e modificação dos mesmos para tratamento de padrões miccionais inadequados.

2- Eletro-estimulação: é a aplicação de corrente elétrica para estimular as vísceras pélvicas ou sua inervação. O objetivo pode ser induzir uma resposta terapêutica diretamente ou modular uma disfunção do trato urinário inferior, intestinal ou sexual.

3- Cateterização: técnica para esvaziamento da urina em que se utiliza um cateter para drenar a bexiga ou um reservatório urinário.

* Cateterização intermitente: drenagem ou aspiração da bexiga ou de um reservatório urinário com subsequente retirada do cateter. Pode ser:

- Auto-cateterização intermitente: realizado pelo próprio paciente

- Cateterização intermitente limpa: utiliza-se técnicas habituais de lavagem e cateteres descartáveis ou reutilizáveis limpos.

- Cateterização intermtente asséptica: utiliza-se técnica estéril, com desinfecção genital e uso de luvas e cateres esterilizados.

* Cateterização de demora: um cateter permanece na bexiga, reservatório urinário ou conduto urinário por período superior ao de um esvaziamento.

4- Desencadeamento do reflexo vesical: compreende várias manobras (como manipulação anal/ retal) realizadas pelo paciente ou pelo terapeuta para desencadear a contração reflexa do detrusor por estímulo exterioceptivo.

5- Expressão vesical: manobras para aumentar a pressão intra-vesical e facilitar o esvaziamento, como manobra de Valsalva e manobra de Credé.


REFERÊNCIAS

1- Abrams P, Cardoso L, Fall M, Griffiths D, Rosier P, Ulmsten U, van Kerrebroeck P, Victor A, Wein A. The stantardization of terminology of lower urinary tract function: report from the Standardization Sub-committee of the International Continence Society. Am J Obstet Gynecol. 2002 Jul; 187(1): 116-126.