Anatomia, histologia e embriologia do trato genito-urinário feminino


Este texto foi atualizado pela última vez em 19 de junho de 2006.


Manuel de Jesus Simões
Gustavo de Quadros Ribeiro
Paulo Cezar Feldner Jr
Marair Gracio Ferreira Sartori
Manoel João Batista Castello Girão


EMBRIOLOGIA

O sistema urogenital é constituído pelos sistemas urinário e genital que estão intimamente associados. Ambos desenvolvem-se a partir do mesoderma intermediário, que se estende ao longo de toda a parede dorsal do corpo do embrião.

O dobramento do embrião no plano horizontal leva o mesoderma intermediário a posição ventral. A crista longitudinal de mesoderma, de cada lado da aorta primitiva, na região do tronco, é denominada saliência urogenital que dá origem a partes do sistema urinário e genital (Figuras 1 e 2). A porção que origina o sistema urinário é denominada de cordão nefrogênico e a parte que dá origem ao sistema genital é conhecida como saliência gonadal ou genital.

Figura 1: Cordão Nefrogênico.
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Figura 2: Cordão Nefrogênico.
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Desenvolvimento da bexiga e da uretra

O intestino posterior do embrião origina o epitélio da bexiga urinária e a maior parte da uretra. A porção terminal do intestino posterior, denominada cloaca, é uma cavidade forrada por endoderma, que está em contato com o ectoderma da superfície na membrana cloacal.

A cloaca recebe ventralmente o alantóide e é dividida em duas partes (ventral e dorsal) por lâmina coronal chamada de septo uro-retal. O crescimento caudal desse septo divide a cloaca em seio urogenital anteriormente e posteriormente a porção cefálica do canal anal.

Na sétima semana, o septo uro-retal funde-se à membrana cloacal, dividindo-a em membrana anal e membrana urogenital. A área de fusão corresponde ao centro tendíneo do períneo no adulto (Figura 3).

Figura 3: Membrana anal e membrana urogenital.
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O septo uro-retal também divide o esfíncter da cloaca em suas partes anterior e posterior. A parte dorsal torna-se o músculo esfíncter externo do ânus e a parte ventral dá origem aos músculos transversos do períneo, bulbo-esponjosos, ísquio-cavernosos e ao diafragma urogenital.

O seio urogenital divide-se em três partes: vesical (cefálica), que é contínua com a alantóide; pélvica (média) e a parte fálica (caudal), que é fechada externamente pela membrana urogenital.

O epitélio de transição da bexiga deriva do endoderma da parte vesical do seio urogenital. As outras camadas de sua parede derivam do mesênquima esplâncnico adjacente.

No início, a bexiga é contínua com o alantóide, que sofre constrição e se torna cordão fibroso fixado no ápice da bexiga e no umbigo, denominado úraco, que no adulto recebe o nome de ligamento umbilical mediano.

Com o aumento da bexiga, as porções caudais dos ductos mesonéfricos são incorporadas à sua parede dorsal, contribuindo para a formação do tecido conjuntivo do trígono da bexiga, porém o epitélio de toda a bexiga deriva do endoderma do seio urogenital.

O epitélio da totalidade da uretra feminina deriva do endoderma do seio urogenital. O tecido conjuntivo e o músculo liso da uretra derivam do mesênquima esplâncnico adjacente.

Desenvolvimento dos ductos genitais


As características morfológicas sexuais masculinas e femininas começam a se desenvolver a partir da sétima semana. A diferenciação sexual feminina do feto não depende de hormônios e acontece mesmo na ausência dos ovários.

Tanto os embriões masculinos como os femininos têm dois pares de ductos genitais, os mesonéfricos (Wolff) e os para-mesonéfricos (Müller). Os últimos dão origem à porção importante do sistema reprodutor feminino. Derivam de cada lado das invaginações longitudinais de epitélio mesodérmico nas laterais dos mesonefros. As bordas dessas invaginações fundem-se para formar os ductos para-mesonéfricos, cujas extremidades cefálicas afuniladas, abrem-se para a futura cavidade peritoneal.

Os ductos para-mesonéfricos seguem caudalmente paralelos aos ductos mesonéfricos e, na região caudal, cruzam-nos ventralmente, fundindo-se no plano mediano para formar o primórdio útero vaginal que se projeta para o interior do seio urogenital, produzindo elevação chamada de tubérculo do seio (Figuras 4 e 5).

Figura 4: Desenvolvimento dos ductos genitais
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Figura 5: Desenvolvimento dos ductos genitais
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As porções cefálicas não fundidas dos ductos para-mesonéfricos formam as tubas uterinas. O primórdio útero-vaginal forma o útero e a porção superior da vagina.

A fusão dos ductos para-mesonéfricos também aproxima as duas rugas peritoneais que vão formar os ligamentos largos. Ao longo dos dois lados do útero, o mesênquima prolifera e se diferenciam em tecido conjuntivo frouxo e músculos lisos, conhecidos como paramétrios.

O epitélio vaginal deriva do endoderma do seio urogenital, enquanto a parede fibro-muscular deriva do mesênquima circundante. O contato entre o primórdio útero-vaginal e o seio urogenital induz à formação de evaginações endodérmicas pares, chamadas bulbos sino-vaginais. Estas se estendem do seio urogenital até a extremidade caudal do primórdio útero-vaginal.

Os bulbos sino-vaginais fundem-se para formarem a sólida placa vaginal. Mais tarde, as células centrais dessa placa se desintegram, abrindo espaço para a luz da vagina.

Até a fase tardia da vida fetal, a luz da vagina é separada da cavidade do seio urogenital pelo hímen. Em geral, este se rompe durante o período perinatal e persiste como fina dobra de mucosa ao redor do intróito vaginal.

Alguns autores acreditam que o terço superior do epitélio vaginal origina-se do primórdio útero-vaginal e os dois terços inferiores da placa vaginal. A maioria, no entanto, acredita que o revestimento de toda a vagina se origina da placa vaginal.

No sexo feminino nascem brotos da uretra que se aprofundam no mesênquima e vão formar as glândulas uretrais e as para-uretrais (Skene). Evaginações do seio urogenital formam as glândulas vestibulares maiores (Bartholin).
Na mulher adulta algumas vezes encontramos estruturas vestigiais dos ductos mesonéfricos e para-mesonéfricos (Figura 6 e Quadro 1).

Figura 6: Estruturas vestigiais dos ductos mesonéfricos e para-mesonéfricos.
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Quadro 1- Esquema mostrando estruturas vestigiais dos ductos mesonéfricos e paramesonéfricos.

Desenvolvimento da genitália externa

O desenvolvimento é semelhante em ambos os sexos, mas as características sexuais começam a aparecer durante a nona semana, atingindo a diferenciação completa em torno da décima segunda semana.
No início da quarta semana, desenvolve-se o tubérculo genital nos dois sexos, na extremidade cefálica da membrana cloacal. Saliências lábio-escrotais e pregas urogenitais se desenvolvem de cada lado da membrana cloacal e o tubérculo genital se alonga para formar o falo (Figura 7).

Figura 7: Desenvolvimento da genitália externa
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No fim da sexta semana, o septo uro-retal divide a membrana cloacal em membranas urogenital e anal. A membrana urogenital fica no assoalho da fenda mediana, conhecida como sulco urogenital, que é delimitado por pregas urogenitais.

As membranas se rompem cerca de uma semana depois, formando o ânus e o orifício urogenital. Na ausência de andrógenos, ocorre a feminilização da genitália externa indiferenciada. O crescimento do falo cessa gradualmente, tornando-se o clitóris.

As pregas urogenitais fundem -se somente posteriormente, formando o freio dos pequenos lábios. As porções que permanecem separadas constituirão os pequenos lábios.

As pregas lábio-escrotais se fundem posteriormente para formar a comissura labial posterior, e anteriormente, para formar a comissura labial anterior e o monte pubiano. As porções que não se fundiram formarão os grandes lábios.

A região fálica do seio urogenital dá origem ao vestíbulo da vagina, para o qual se abrem a uretra, a vagina e os ductos das glândulas vestibulares maiores.


HISTOLOGIA

Bexiga

Os cálices (menores e maiores) , a pelve renal, o ureter e a bexiga têm a mesma estrutura básica, embora a parede se torne gradualmente mais espessa no sentido da bexiga. A mucosa é formada por epitélio de transição e por lâmina própria de tecido conjuntivo, que varia do frouxo ao denso (Figura 8).

Figura 8: Histologia da bexiga.
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O epitélio de transição é impermeável, sendo as células mais superficiais responsáveis pela barreira osmótica entre a urina e os fluidos teciduais. Nessas células a membrana plasmática em contato com a urina é especializada, apresentando placas espessas separadas por faixas de membrana mais delgada.

Quando a bexiga se esvazia, a membrana se dobra das regiões delgadas e as placas espessas se invaginam formando vesículas fusiformes que permanecem próximas à superfície celular. Ao se encher, sua parede se distende e há tranformação das vesículas em placas, que se inserem na membrana, aumentando a superfície das células. Esta membrana é sintetiizada no aparelho de Golgi e é composta por cerebrosídeos.

A parte muscular é formada por camada longitudinal interna e outra circular externa. A partir da porção inferior do ureter, aparece a longitudinal externa. Tais camadas não são bem definidas. Na parte proximal da uretra, a musculatura da bexiga forma o seu esfíncter interno.

As vias urinárias são envolvidas externamente por membrana adventícia, exceto a parte superior da bexiga recoberta por serosa (peritônio).

Uretra

No sexo feminino, a uretra é exclusiva do sistema urinário. É tubo de 3 cm a 4 cm de comprimento, revestido por epitélio plano estratificado, com áreas de epitélio pseudo-estratificado colunar. Próximo à sua abertura, no exterior, a uretra feminina possui fibras musculares de músculo estriado (Figura 9).

Figura 9: Histologia da uretra.
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O epitélio é sensível aos hormônios femininos. Assim, na pós-menopausa, a linha de demarcação entre os epitélios estratificado e pseudo-estratificado está na uretra média, e no menacme está próxima à bexiga, podendo ocupar a área do trígono vesical.

Assoalho pélvico

As fibras musculares estriadas esqueléticas contribuem para a continência urinária, pois sustentam a vagina e atuam como esfíncter para a bexiga. Há dois tipos de fibras musculares, tipo I ou lentas, com metabolismo oxidativo, e tipo II ou rápidas, com metabolismo anaeróbio. O músculo levantador do ânus possui 70% de fibras do tipo I e 30% do tipo II.

O músculo esfíncter externo da uretra é composto quase que exclusivamente por fibras do tipo I, e é importante para a função intrínseca da uretra e para a continência passiva.

Ambas as fibras, especialmente as do tipo I, são capazes de se hipertrofiar com o treinamento. Fibras musculares com maior capacidade oxidativa têm menor resistência à fadiga e vice-versa.

ANATOMIA

Anatomia do trato urinário inferior e do assoalho pélvico na mulher

O conhecimento da anatomia do trato urinário inferior e do assoalho pélvico é fundamental para o entendimento da fisiologia da micção e da fisiopatologia da incontinência urinária e outros distúrbios urinários.

A íntima relação entre as condições do assoalho pélvico e a incontinência urinária gerou o envolvimento do ginecologista no estudo, análise e solução das disfunções do trato urinário baixo na mulher.

O trato urinário inferior é composto pela uretra, colo vesical e bexiga.

Bexiga

É uma víscera oca, sendo dividida em cúpula e base ou assoalho, com limite no nível da linha entre os meatos ureterais. A cúpula é porção relativamente delgada e razoavelmente distensível, enquanto a base possui musculatura mais espessa e sofre menor distensão durante o enchimento vesical.

Na cúpula, o músculo detrusor apresenta-se em camadas pouco distinguíveis; já próximo à base, essas camadas tornam-se mais definidas. A porção mais externa tem fibras orientadas predominantemente no sentido longitudinal. A porção intermediária é composta por fibras oblíquas e circulares. Por fim, a porção mais interna é plexiforme e pode ser vista sob a forma de trabeculações durante a cistoscopia.

Na região do colo vesical, há dois feixes de fibras em forma de “U” (Figura 10), cujas concavidades estão em sentidos opostos. O feixe principal passa anteriormente ao meato interno da uretra e abre-se posteriormente. O segundo feixe, sob o trígono vesical, composto por fibras da camada intermediária, abre-se anteriormente. O meato uretral atravessa o espaço das concavidades formadas pelos dois feixes musculares. A contração muscular desses feixes poderia contribuir para o fechamento da luz da uretra. No entanto, estas fibras musculares fazem parte da musculatura detrusora que contrai durante a micção, e na verdade, atuariam dificultando o esvaziamento vesical.

Entretanto, há evidências de que a inervação autonômica desses feixes é diferente daquela da musculatura da cúpula, havendo relaxamento dos feixes em “U” durante o esvaziamento vesical.

A musculatura do trígono vesical consiste em três porções: trígono urinário, anel trigonal e placa trigonal. A primeira é de formato triangular, com vértices no meato uretral e nos orifícios ureterais. Na altura do meato uretral interno (os 15% proximais da uretra), essa musculatura o envolve na porção do colo vesical, formando o anel trigonal. A placa trigonal é a coluna de tecido muscular que segue ao longo da parede posterior da uretra. A musculatura trigonal situa-se na área do trato urinário inferior inervada pelo sistema nervoso simpático (Figura 10).

Figura 10: Esquema mostrando a orientação dos feixes musculares na uretra.
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Uretra

É formação tubular cuja parede possui várias camadas: músculo esfíncter externo da uretra, que envolve fina camada circular de músculo liso, que envolve outra camada longitudinal do mesmo tecido. Em seguida, vem o estrato submucoso rico em vasos sanguíneos; e, por último, a mucosa.

A musculatura peri-esfincteriana urogenital possui duas porções diferentes, porção esfincteriana superior e par de feixes arciformes inferiormente. A divisão superior tem fibras que circundam a uretra nos 20% a 60% proximais de seu comprimento, porém não preenchem toda a circunferência; o espaço entre os feixes é ocupado pela placa trigonal, que funciona como tendão ligando as duas extremidades do músculo estriado circular.

A porção inferior está adjacente à luz uretral nos 60% a 80% seguintes do seu comprimento. Consiste em duas faixas musculares arqueadas sobre a superfície anterior da uretra. Uma dessas faixas origina-se na vagina, chamando-se músculo esfíncter uretro-vaginal. A outra faixa origina-se próximo ao ramo ísquio-púbico também denominado de músculo compressor da uretra ou o músculo transverso profundo do períneo.

As fibras deste músculo são principalmente as do tipo I, sendo responsáveis pela capacidade de manutenção da continência urinária em cerca de 50% das mulheres continentes com colo vesical incompetente. Além disso, a ocorrência de incontinência urinária de esforço após vulvectomia radical é explicada pela remoção da uretra distal, contendo os músculos compressor uretral e esfíncter uretro-vaginal.

Os 20% distais da uretra são envoltos por tecido fibroso e incluem os lábios uretrais. Esta porção não tem função na continência, mas provavelmente, no direcionamento do jato miccional.

A musculatura lisa da uretra é representada por camada circular, adjacente ao anel trigonal, e por uma camada longitudinal mais desenvolvida, que encurta a uretra durante a micção.

A submucosa contém plexo artério-venoso complexo. A oclusão do suprimento arterial para a uretra diminui significativamente a pressão uretral no repouso. Quando a pressão uretral aumenta, o leito vascular se esvazia. Aparentemente, sua função é manter coxim inflável, contribuindo para o efeito selante no repouso. Quando a musculatura uretral contrai, o leito vascular se esvazia e nessa ocasião tal plexo pode ter menor importância.
As glândulas estão na submucosa, sobretudo ao longo da parede dorsal da uretra, nas porções distal e média. Os divertículos de uretra originam-se da dilatação dessas glândulas.

Sustentação da uretra, colo vesical e bexiga.

A capacidade da mulher de manter-se continente depende da combinação das funções normais do colo vesical, da uretra e do assoalho pélvico.

Há estrutura fibrosa que fixa o terço distal da uretra na porção inferior dos ossos púbicos, denominada ligamento pubo-uretral. Os dois terços proximais da uretra são móveis. Na região distal a uretra também é fixa aos ossos púbicos pelo diafragma urogenital (membrana perineal) e pelas porções inferiores do esfíncter urogenital.

A membrana perineal consiste em folheto de tecido conjuntivo fibroso que ocupa a região entre os ramos ísquio-púbicos. Os músculos compressor uretral e esfíncter uretro-vaginal estão logo acima dessa membrana.
Assim, o suporte da uretra inclui tanto musculatura esquelética, como elementos inertes do tecido conjuntivo, de forma que a mulher consegue controlar voluntariamente a posição de sua uretra proximal. Além disso, o suporte da uretra depende da conexão da vagina e dos tecidos peri-uretrais aos músculos e fáscias do assoalho pélvico.

De cada lado da pelve, há faixa de tecido fibroso inserida no terço inferior do osso púbico, a 1cm da linha mediana, e na espinha isquiática, conhecida como arco tendíneo da fáscia endopélvica. Esta estrutura passa sobre a face interna do músculo levantador do ânus, que se origina 3 cm acima do arco, a partir de outro arco tendíneo, o da fáscia do músculo levantador do ânus, que se funde ao arco da fáscia endopélvica junto à espinha isquiática (Figura 11). É a inserção lateral da fáscia endopélvica no seu arco tendíneo que sustenta a uretra e a bexiga (fáscia pubo-cervical).

Figura 11: Fáscia endopélvica (visão superior da pelve).
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Em suma, as estruturas descritas acima, as porções mediais dos músculos levantadores do ânus, a fáscia endopélvica e seu arco tendíneo, formam o sistema de suporte da uretra.

Há duas fixações laterais da fáscia endopélvica, em que se apóiam a uretra e a vagina, que fazem parte do sistema que sustenta a uretra: a fixação fascial, que liga os tecidos peri-uretrais e a parede anterior da vagina ao arco tendíneo da fáscia endopélvica (fáscia para-vaginal); a fixação muscular, que liga os tecidos peri-uretrais à borda medial do músculo levantador do ânus.

Essa conexão dos músculos levantadores do ânus à fáscia endopélvica, que envolve a uretra e a vagina, permite que o tônus basal da musculatura mantenha o colo vesical na posição retro-púbica. Quando a musculatura relaxa no início da micção, há descida do colo vesical e este retorna à localização retro-púbica, com a contração da musculatura, no final da micção.

Na região peri-uretral, também apoiado sobre a fáscia endopélvica, estão os músculos pubo-vesicais, que são extensões do músculo detrusor. Esses, em conjunto com elementos fibrosos, são chamados de ligamentos pubo-vesicais, que são separados do sistema de sustentação por um extenso plexo vascular. A função dos músculos pubo-vesicais pode ser a de auxiliar a abertura do colo vesical.

Caso a transmissão passiva da pressão intra-abdominal para a uretra fosse o único determinante da continência, as pressões durante a tosse seriam as máximas na região da uretra proximal. No entanto, o que estudos revelam é que a uretra média e distal tem as maiores elevações de pressão. Esta região coincide com a localização dos músculos compressor da uretra e esfíncter uretro-vaginal, indicando que durante o esforço a contração desses músculos aumentaria a pressão naquela região. Tais aumentos de pressão normalmente excedem os valores da pressão intra-abdominal e ocorrem antes do aumento da pressão abdominal na tosse, demonstrando que os músculos do assoalho pélvico estão contraindo, preparando-se para a tosse (Figura 12).

Figura 12: Vista lateral mostrando os músculos do assoalho pélvico da mulher

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Estática das vísceras pélvicas

O sistema de sustentação dos órgãos pélvicos situa-se entre o peritônio parietal e a fáscia que cobre a musculatura do assoalho pélvico. Este sistema mantém as relações espaciais entre o colo uterino e vagina, bexiga e uretra e reto e canal anal, tendo importância na manutenção da função adequada de cada órgão. É constituído por tecido conjuntivo que envolve e sustenta as vísceras pélvicas e seus respectivos vasos sanguíneos e linfáticos, linfonodos e nervos.

Divide-se, funcionalmente, em duas partes: cápsulas das fáscias viscerais e sistema de suspensão (bainhas, septos e ligamentos). As cápsulas das fáscias viscerais envolvem a bexiga, uretra, colo uterino, vagina, reto e canal anal, e estão em continuidade com o revestimento muscular liso de cada víscera. Esse revestimento de fáscia fornece sustentação durante as funções de distensão e esvaziamento. Além disso, servem como ponto de fixação para as bainhas, septos e ligamentos, que conectam esses órgãos à fáscia parietal que recobre os músculos e ossos da pelve, ancorando-os às paredes pélvicas anterior, laterais e posterior.

Há três níveis de suspensão dos orgãos pélvicos na posição ortostática, já que os distúrbios do assoalho pélvico se manifestam nessa posição(Figura 13).

Figura 13: Esquema mostrando os níveis de suspensão e sustentação dos orgãos pélvicos.
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O primeiro nível, superior, envolve os ligamentos cardinais e útero-sacrais, que tracionam a cúpula vaginal e o colo uterino posteriormente, em direção ao sacro, de forma que as vísceras sejam posicionadas sobre a placa dos levantadores.

O segundo nível consiste nos tecidos que sustentam a bexiga, os dois terços superiores da vagina e do reto na posição horizontal, ou seja, as fáscias pubo-cervicais e o septo reto-vaginal.

O terceiro nível é perpendicular ao plano do hiato dos músculos levantadores e dos trígonos uro-genital e anal, e determina a orientação vertical dos terços inferiores da uretra, vagina e canal anal. As fixações dessas porções desses órgãos às fáscias parietais dos músculos pubo-coccígeos e pubo-retais, membrana perineal e corpo perineal são responsáveis pela manutenção do terceiro nível de sustentação.

A pelve feminina é delimitada pela face posterior da sínfise púbica anteriormente, músculos obturatórios internos lateralmente, sacro e músculos piriformes posteriomente. O assoalho é composto pelos músculos levantadores do ânus e pelos músculos coccígeos. Os levantadores do ânus originam-se de linha formada por espessamento da fáscia parietal que recobre o músculo obturador interno, e que se estende da face póstero-lateral do osso púbico até a espinha isquiática. Tal estrutura é conhecida como arco tendíneo.

Os músculos levantadores do ânus são divididos em três pares de feixes (Figura 14): pubo-coccígeo (circunda o terço inferior da vagina e se insere na rafe ano-coccígea e no cóccix); pubo-retal (porção mais inferior e medial, passa posteriomente ao reto, criando ângulo de 90° na junção ano-retal); ílio-coccígeo (porção posterior emitindo fibras que se fundem ao revestimento longitudinal do reto). Funde-se com o músculo contra-lateral, anteriomente à rafe ano-coccígea, formando a placa do levantador, que possui 3 a 4 cm de extensão.

Figura 14: Esquema mostrando o diafragma pélvico (músculo levantador do ânus).
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O hiato do levantador é o espaço entre os feixes musculares de cada lado da pelve e permite a passagem da uretra e da vagina para o períneo.

A placa do levantador é dinâmica, alterando constantemente sua tensão e ajustando-se às alterações da pressão intra-abdominal. Está no plano horizontal da junção ano-retal ao cóccix. Sobre ela se apóiam a bexiga, os dois terços superiores da vagina e o reto. Assim, com o aumento da pressão abdominal, as vísceras são empurradas contra a placa dos levantadores contraída. Isto, juntamente com a contração da musculatura do hiato do levantador, impede o prolapso genital.

Os músculos levantadores do ânus recebem inervação dos nervos sacrais dos segmentos S2-S4 em sua face pélvica. A face perineal recebe inervação dos ramos do nervo pudendo.

Há espessamento na fáscia dos músculos levantadores, que se estende do arco púbico até a espinha isquiática de cada lado, denominado arco tendíneo da fáscia endopélvica. Este é o local de fixação da porção horizontal das fáscias pubo-cervical e septo reto-vaginal.

O períneo situa-se inferiormente aos músculos levantadores do ânus e é delimitado anteriomente pelo arco púbico, lateralmente pelos ramos ísquio-púbicos, tuberosidades isquiáticas e ligamentos sacro-tuberosos, e posteriomente pelo cóccix, formando um losango. Dividindo-o em dois triângulos por linha passando entre as tuberosidades isquiáticas, temos anteriomente o trígono uro-genital, e posteriomente, o trígono anal.

No trígono urogenital, há membrana de tecido conjuntivo que ocupa o espaço entre os ramos ísquio-púbicos. Tal estrutura é denominada de membrana perineal separando o compartimento superficial (músculo bulbo-esponjoso, músculo tranverso superficial do períneo) do profundo (músculo ísquio-cavernoso e tranverso profundo do períneo). Esses compartimentos estão fixados ao corpo perineal entre a vagina e o ânus, que é estrutura de formato piramidal, com base voltada para o chão em indivíduos na posição ortostática. Tem 3 cm a 4 cm de altura e seu ápice está na junção do terço inferior com o terço médio da vagina.

No corpo perineal inserem-se os músculos bulbo-esponjosos, tranverso superficial do períneo, levantador do ânus e septo reto-vaginal. Este estabiliza o corpo perineal através de sua fixação cranial aos ligamentos útero-sacrais.

Referências

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